No mês de Janeiro, grande parte das cidades do interior de Pernambuco, celebra festas em honra as devoções católicas, algumas destas seculares. Neste momento as cidades se embelezam para participarem e promoverem com êxito as festividades do lugar.
“Ardia aquela fogueira
Que me esquentava
A vida inteira
Eterna noite
Sempre a primeira
Festa do Interior..”
Neste espaço de festa religiosa, sagrado e profano entrecruzam. Toda a cidade se prepara. É o momento de receber pessoas de outras regiões, de organizar a cidade, as principais ruas do lugar ganham iluminação, recursos são disponibilizados para trazer atrações musicais com o intuito de atrair muitos visitantes e, divulgar o nome da cidade. A grande maioria do povo contribui para o êxito da festa, a hierarquização por um momento é suprimida, para dá lugar a coletividade que se esforça para promover o êxito do evento. Sobre o caráter comunitário da festa, SANTOS (2009), no artigo: O profano é sagrado na Bahia, nos traz a seguinte reflexão: “A festa por si só é um fato social, político, simbólico e religioso que permite aos participantes a incorporação de normas e valores da vida coletiva. É ainda, um momento de integração social e de distinção social”.
Todo esse detalhe organizacional tem na herança dos colonizadores seu surgimento. Na obra Festas e utopias no Brasil Colonial (2000), a historiadora Mary del Priore, descreve a origem das festividades religiosas no Brasil, esta obra é umas das principais referências para quem deseja estudar o fenômeno religioso e as festas populares do país.
Sobre o início dos festejos religiosos, PRIORE (2000), afirma que: “o seu início era marcado também por um passeio com “bandeiras de procissão” ou estandartes com a imagem do santo homenageado.” (2000:33). Ao analisar CASCUDO, a autora observa ainda que: “conservou-se no Brasil a tradição de o mastro de São João ou do orago da freguesia ser erguido diante da igreja com música, cantos e foguetes, ao iniciar-se a função votiva.” (2000:34).
Outra herança presente nas festas do interior é a iluminação da cidade, a pintura nas fachadas das casas. O brilho das cores da iluminação, das casas, enfim, das ruas do lugar, também é uma prática vinda do período colonial, “ao espetáculo das luminárias e da decoração das ruas, somava-se a queima de fogos, cuja presença nas festas coloniais remota ao século XVII.” (2000:38).
Sobre a utilização da tradicional salva de 21 tiros, “girândolas”, que anunciam o dia magno das festividades do interior, geralmente às 6 da manhã e ao meio dia, GOMES (2011), na obra 1808, relata o uso da salva de 21 tiros em homenagem ao rei na cidade do Rio de Janeiro, vejamos o que cita o autor: “Em homenagem ao rei, cada navio que entrava no porto disparava 21 tiros, respondidos pelos fortes da barra – costume que não se conhecia em nenhum outro lugar do mundo”. (2011:148). Mais outra herança colonial, ainda sobre o pipocar dos fogos, PRIORE observa que a origem do uso de fogos de artifícios nas festas vem da China:
“Vinda essa tradição de Portugal, ela era a alegria das romarias e das procissões. Sua origem é a China, onde constituía características das solenidades sagradas e profanas. Abrindo a celebração da festa, os fogos anunciavam a partida dos cortejos processionais mas também a sua chegada à Igreja ou à Praça onde se dava os principais eventos da festa.” (2000:38).
No estudo PRIORE observou que o uso dos fogos de artifício era um instrumento eficaz de poder, ele por vezes legitimava a propaganda governamental, ou ser utilizado enquanto instrumento de resistência às elites. Quanto a celebração do ritual da procissão, um dos pontos altos das festas do interior, PRIORE destaca a função das procissões: “Função tranquilizadora, piedosa e também celebrativa tinha, portanto, a procissão na Idade Moderna”. (2000:24), a mesma reforça os laços de obediência à igreja, considerando o rito como sendo um fenômeno comunitário e hierárquico.
Conhecendo um pouco da história, assim podemos contemplar melhor as tão tradicionais festas do interior, e nos seus ritos vislumbrar as heranças coloniais, as transformações ocorridas nas comemorações e até mesmo o saudosismo existentes naqueles que consideram as festas antigas como sendo melhores. Enfim, espero que as festas de interior continuem promovendo sonhos e utopias a todos que prestigiam este momento tão significativo para as populações das cidades interioranas.
Um exemplo de festa de interior que existia em Caruaru era a festa do Comércio, imagem retrata a festa de 1968. Percebe-se a iluminação na Rua da Matriz, bem como a iluminação na fachada da Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Foto disponível em: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?p=90278364
Procissão da Bandeira de Nossa Senhora do Desterro. Edição 2012. Foto disponível em: http://www.pstoa-agrestina1912.com/2012/03/novenario-da-festa-de-nossa-senhora-do.html
Carro andor com as imagens de Nossa Senhora do Desterro e multidão aguardando o inicio da celebração da Missa. Edição2012. Disponível em: http://www.pstoa-agrestina1912.com/2012/03/procissao-nossa-senhora-do-desterro-02.html
BIBLIOGRAFIA:
DEL PRIORE, Mary Lucy. Festas e Utopias no Brasil Colonial. São Paulo,
Brasiliense, 2000.
GOMES, Laurentino. 1808. Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil.
SANTOS, Catarina Cerqueira de Freitas. O PROFANO É SAGRADO NA BAHIA. Imagens e representações da cultura popular. Disponível em: http://oolhodahistoria.org/culturapopular/artigos/festaseutopias.pdf
FOTOS:
Igreja de Nossa Senhora da Conceição Caruaru, disponível em: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?p=90278364
Procissão da Bandeira de Nossa Senhora do Desterro. Edição 2012. Foto disponível em: http://www.pstoa-agrestina1912.com/2012/03/novenario-da-festa-de-nossa-senhora-do.html
Procissão Nossa Senhora do Desterro. Edição 2012. Disponível em: http://www.pstoa-agrestina1912.com/2012/03/procissao-nossa-senhora-do-desterro-02.html
Letra de Música: Festa do interior (Gal Costa) Disponível em: http://letras.mus.br/gal-costa/46110/







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