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Festa de interior


Por Paulo Junior

No mês de Janeiro, grande parte das cidades do interior de Pernambuco, celebra festas em honra as devoções católicas, algumas destas seculares. Neste momento as cidades se embelezam para participarem e promoverem com êxito as festividades do lugar. 

“Ardia aquela fogueira
Que me esquentava
A vida inteira
Eterna noite
Sempre a primeira
Festa do Interior..”

Neste espaço de festa religiosa, sagrado e profano entrecruzam. Toda a cidade se prepara. É o momento de receber pessoas de outras regiões, de organizar a cidade, as principais ruas do lugar ganham iluminação, recursos são disponibilizados para trazer atrações musicais com o intuito de atrair muitos visitantes e, divulgar o nome da cidade. A grande maioria do povo contribui para o êxito da festa, a hierarquização por um momento é suprimida, para dá lugar a coletividade que se esforça para promover o êxito do evento. Sobre o caráter comunitário da festa, SANTOS (2009), no artigo: O profano é sagrado na Bahia, nos traz a seguinte reflexão: “A festa por si só é um fato social, político, simbólico e religioso que permite aos participantes a incorporação de normas e valores da vida coletiva. É ainda, um momento de integração social e de distinção social”.

Todo esse detalhe organizacional tem na herança dos colonizadores seu surgimento. Na obra Festas e utopias no Brasil Colonial (2000), a historiadora Mary del Priore, descreve a origem das festividades religiosas no Brasil, esta obra é umas das principais referências para quem deseja estudar o fenômeno religioso e as festas populares do país.

Sobre o início dos festejos religiosos, PRIORE (2000), afirma que: “o seu início era marcado também por um passeio com “bandeiras de procissão” ou estandartes com a imagem do santo homenageado.” (2000:33). Ao analisar CASCUDO, a autora observa ainda que: “conservou-se no Brasil a tradição de o mastro de São João ou do orago da freguesia ser erguido diante da igreja com música, cantos e foguetes, ao iniciar-se a função votiva.” (2000:34). 

De fato, a programação religiosa das festas do interior, até a contemporaneidade, tem inicio com a procissão da bandeira, que fica erguida na frente da igreja até o término dos festejos. 

Outra herança presente nas festas do interior é a iluminação da cidade, a pintura nas fachadas das casas. O brilho das cores da iluminação, das casas, enfim, das ruas do lugar, também é uma prática vinda do período colonial, “ao espetáculo das luminárias e da decoração das ruas, somava-se a queima de fogos, cuja presença nas festas coloniais remota ao século XVII.” (2000:38).

Sobre a utilização da tradicional salva de 21 tiros, “girândolas”, que anunciam o dia magno das festividades do interior, geralmente às 6 da manhã e ao meio dia, GOMES (2011), na obra 1808, relata o uso da salva de 21 tiros em homenagem ao rei na cidade do Rio de Janeiro, vejamos o que cita o autor: “Em homenagem ao rei, cada navio que entrava no porto disparava 21 tiros, respondidos pelos fortes da barra – costume que não se conhecia em nenhum outro lugar do mundo”. (2011:148). Mais outra herança colonial, ainda sobre o pipocar dos fogos, PRIORE observa que a origem do uso de fogos de artifícios nas festas vem da China:

 “Vinda essa tradição de Portugal, ela era a alegria das romarias e das procissões. Sua origem é a China, onde constituía características das solenidades sagradas e profanas. Abrindo a celebração da festa, os fogos anunciavam a partida dos cortejos processionais mas também a sua chegada à Igreja ou à Praça onde se dava os principais eventos da festa.” (2000:38).
No estudo PRIORE observou que o uso dos fogos de artifício era um instrumento eficaz de poder, ele por vezes legitimava a propaganda governamental, ou ser utilizado enquanto instrumento de resistência às elites. Quanto a celebração do ritual da procissão, um dos pontos altos das festas do interior, PRIORE destaca a função das procissões: “Função tranquilizadora, piedosa e também celebrativa tinha, portanto, a procissão na Idade Moderna”. (2000:24), a mesma reforça os laços de obediência à igreja, considerando o rito como sendo um fenômeno comunitário e hierárquico. 


Conhecendo um pouco da história, assim podemos contemplar melhor as tão tradicionais festas do interior, e nos seus ritos vislumbrar as heranças coloniais, as transformações ocorridas nas comemorações e até mesmo o saudosismo existentes naqueles que consideram as festas antigas como sendo melhores. Enfim, espero que as festas de interior continuem promovendo sonhos e utopias a todos que prestigiam este momento tão significativo para as populações das cidades interioranas.


Um exemplo de festa de interior que existia em Caruaru era a festa do Comércio, imagem retrata a festa de 1968. Percebe-se a iluminação na Rua da Matriz, bem como a iluminação na fachada da Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Foto disponível em: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?p=90278364 


Procissão da Bandeira de Nossa Senhora do Desterro. Edição 2012. Foto disponível em: http://www.pstoa-agrestina1912.com/2012/03/novenario-da-festa-de-nossa-senhora-do.html


Carro andor com as imagens de Nossa Senhora do Desterro e multidão aguardando o inicio da celebração da Missa. Edição2012. Disponível em: http://www.pstoa-agrestina1912.com/2012/03/procissao-nossa-senhora-do-desterro-02.html 


BIBLIOGRAFIA:
DEL PRIORE, Mary Lucy. Festas e Utopias no Brasil Colonial. São Paulo, 
Brasiliense, 2000.


GOMES, Laurentino. 1808. Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil.


SANTOS, Catarina Cerqueira de Freitas. O PROFANO É SAGRADO NA BAHIA. Imagens e representações da cultura popular. Disponível em: http://oolhodahistoria.org/culturapopular/artigos/festaseutopias.pdf 


FOTOS: 
Igreja de Nossa Senhora da Conceição Caruaru, disponível em: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?p=90278364


Procissão da Bandeira de Nossa Senhora do Desterro. Edição 2012. Foto disponível em: http://www.pstoa-agrestina1912.com/2012/03/novenario-da-festa-de-nossa-senhora-do.html
Procissão Nossa Senhora do Desterro. Edição 2012. Disponível em: http://www.pstoa-agrestina1912.com/2012/03/procissao-nossa-senhora-do-desterro-02.html 



Letra de Música: Festa do interior (Gal Costa) Disponível em: http://letras.mus.br/gal-costa/46110/

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